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Linux em Tempo Real

by Cézar Taurion — last modified 05/05/2008 01:00

Nos últimos anos temos visto uma crescente utilização de softwares embarcados em praticamente todos os objetos construídos pelo homem. Software embarcado é o software que é embutido dentro de um equipamento, como um sistema de injeção eletrônica de um automóvel, permitindo que este equipamento atue com maior funcionalidade e flexibilidade.

Antes apenas utilizados em sistemas complexos como sistemas industriais, aeronaves e navios, hoje vemos softwares embarcados em geladeiras, televisores e fornos de microondas. Estes equipamentos tornam-se cada vez mais sofisticados, demandando mais e mais complexidade no seu hardware e software embarcado.

Muitas indústrias que tradicionalmente competiam pela qualidade do seu produto físico, como automóveis e eletrodomésticos, estão começando, de maneira crescente e rápida, a adotar software em seus produtos. Em alguns setores, como o automotivo as estimativas apontam que mais de 70% das futuras inovações serão baseadas em tecnologia de software e não mais nas partes mecânicas. Estima-se que por volta de 2010 os modelos de automóveis topo de linha deverão incorporar mais de 100 milhões de linhas de código de software em cada veículo. O uso do software embarcado na indústria não é mais uma questão restrita aos setores de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), mas parte integrante e essencial das estratégias de diferenciação competitiva dos seus produtos.

Alguns números já demonstram de forma inequívoca a importância do software embarcado no setor industrial. Quando falamos em diferenciação competitiva, já observamos que parcela significativa da diferenciação entre os produtos baseia-se na maior oferta de funcionalidade, suportada por tecnologia de software. A revolução digital tem mudado e vai continuar mudando a dinâmica de muitas indústrias. Na indústria de eletroeletrônicos vemos claramente a digitalização substituindo o mundo analógico.

As transformações não ocorrem apenas em máquinas sofisticadas, como automóveis de luxo, mas já vemos lavadoras de roupa com software embarcado possibilitando uma maior oferta de funções. As vantagens dos objetos falarem uns com os outros e com os computadores que processam as aplicações nas empresas são imensas. Para um fabricante de geladeiras, saber com antecedência de eventuais problemas de manutenção identificados por sensores e transmitidos via Internet aceleram as atividades da assistência técnica e transformam as relações com os seus clientes.

Neste mercado o Linux tem papel de extrema importância, principalmente pelo custo de entrada baixo. Como o Linux não demanda pagamento de royalties, o usuário não vai pagar um valor adicional pelo custo da funcionalidade adicionada a uma geladeira...O resultado é que o Linux está caminhando para se tornar o sistema dominante no ambiente de sistemas embarcados. Recentes pesquisas apontam que os desenvolvedores de sistemas embarcados estão migrando ou planejando a migração para Linux, migrando dos sistemas proprietários que anteriormente dominavam este mercado. Já existem muitos negócios gravitando neste mundo, inclusive distribuidoras especializadas como a "Red Hat" do Linux embarcado, a MontaVista (www.mvista.com).

A liderança do Linux nos sistemas embarcados tem um significado importante, pois à medida que se dissemine em milhões de dispositivos (em número muito maior que os PCs...), acarretará uma forte influencia nas plataformas tradicionais. Como software é software, qualquer que seja a plataforma, desenvolvedores acostumados a desenvolver aplicações para o ambiente Linux em um celular, podem rapidamente adaptar seus conhecimentos para desenvolver também aplicações para qualquer outra plataforma.

Porque o Linux tem feito tanto sucesso neste cenário? O mercado de software embarcado tem peculiaridades específicas. Apresenta uma ampla diversidade de funcionalidades e utiliza uma gama muito grande de processadores. É uma diversidade diferente do ambiente de computação tradicional, onde existe uma concentração em poucos processadores.

O software embarcado deve apresentar alta estabilidade. Uma aeronave ou uma usina nuclear não pode apresentar falhas no software. Outra característica de muitos dispositivos é a necessidade de operação em tempo real, principalmente nos equipamentos de controle de processo.

O software embarcado deve operar em ambientes de recursos computacionais limitados, como memória ou discos magnéticos. Assim, recursos como gerenciamento de discos, rotinas de grande impacto no desempenho de sistemas comerciais, torna-se pouca importância no contexto da computação embarcada.

O fator custo é de grande importância em sistemas embarcados. Um telefone celular não pode custar o dobro de outro por causa do preço do software básico que esteja embutido nele. O sistema operacional de um equipamento destes é totalmente invisível e não desperta a percepção do comprador. As diferenças devem ser claramente perceptíveis, como um maior número de funcionalidades disponibilizadas. Um sistema operacional baseado nos princípios do Open Source tira um peso grande do custo, tornando-se bem atraente para este setor.

O Linux, pela qualidade de seu código já é hoje peça fundamental da arquitetura de tecnologia de sistemas embarcados militares dos EUA. A Marinha americana baseou sua arquitetura, denominada NOACE - Navy Open Architecture Computing Environment em padrões abertos e considera o Linux fundamental em sua estratégia de reduzir os tempos e custos de desenvolvimento de seus sistemas embarcados em navios, aeronaves e submarinos. O primeiro grande projeto da Marinha americana a adotar esta tecnologia é a nova classe de destroyers DD(X), cujo primeiro navio é o DDG 1000, Zunwalt. O software destes navios vai rodar em servidores Blade da IBM, que também contribuiu decisivamente para adaptar os ambientes Linux e Java (WebSphere Real Time) para operar em tempo real.

O mesmo conceito de padrões abertos foi adotado pelo Exército americano em sua arquitetura chamada de WSCOE – Weapons Systems Common Operating Environment.

De maneira geral, os usuários (consumidores) destes equipamentos não sabem e nem precisam saber que o Linux está rodando em seus dispositivos. Mas para os fabricantes o fato do Linux estar disponível em código fonte, permite que seja usado sem pagamento de royalties para cada produto vendido, além de facilitar em muito a customização, praticamente montando-o para as necessidades especificas de cada aparelho. Isto dá aos fabricantes um completo controle sobre o dispositivo, permitindo fazer modificações e implementar inovações muito rapidamente.



*Cezar Taurion é gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil. Seu blog pode ser acessado em www-03.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion.

Este artigo foi publicado com a devida autorização. Todos os direitos reservados ao autor.




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