Software embarcado como motor da Physical Product Reengineering
Em 2005 escrevi um livro sobre computação embarcada (Software Embarcado: a nova onda da informática), publicado pela Brasport (www.brasport.com.br). É um tema no qual procuro me manter atualizado e na edição de outubro de 2007, da Communicatios of the ACM li, com satisfação, um artigo muito interessante, “Physical Product Reengineering with Embedded Information Technology”, que mostra como a indústria, de maneira geral, está reengenheirando seus produtos, agregando a eles mais inteligência.
No livro já havia abordado esta tendência, que vejo se acelerar. A PPR (Physical Product Reengineering) significa incorporar software para adicionar funcionalidade e criar diferenciação em produtos físicos, como automóveis, geladeiras e até mesmo tênis esportivos.
Quais são os drivers desta tendência? De maneira geral nas indústrias mais maduras torna-se cada vez mais difícil criar diferenciação entre produtos. O uso de software permite adicionar inovações e novas funcionalidades, saindo do campo da comoditização. Além disso, o software permite criar uma experiência mais interativa com o usuário do produto e mesmo alavanca novas oportunidades de receita, explorando serviços. Um exemplo, uma geladeira ou máquina de lavar inteligente pode interagir com o seu fabricante via Internet efetuando diagnósticos remotos, conseguindo uma maior interação com o cliente. Hoje, após a venda, o fabricante perde contato com seus clientes. Coletando informações de uso o fabricante pode identificar problemas de qualidade e manutenção, e passa a ter condições de oferecer, de forma proativa, novos serviços, expandindo sua receita por toda o ciclo de vida do produto.
E como esta reengenharia pode ser feita? Bem, temos três alternativas básicas: uma é a adição de novas funcionalidades a produtos já existentes, aumentando sua conveniencia e qualidade. Um exemplo são as colheitadeiras equipadas com GPS. Outra é redesenhar o produto de forma que gere output digital, permitindo a criação de novos produtos e serviços. A geladeira inteligente pode ser um exemplo. E finalmente, a substituição completa por tecnologia digital. O exemplo típico são as câmeras digitais fotográficas, que simplesmente eliminaram as câmeras analógicas tradicionais.
Esta última alternativa apresenta os maiores impactos, pois muda radicalmente os produtos, processos e a própria natureza da competição. Vamos olhar os celulares. A indústria de celulares está vivendo uma das suas maiores mudanças nos seus 25 anos de história: está passando de um equipamento que basicamente faz chamadas para ser um computador de bolso que combina a capacidade de navegação pela Internet com uma série extensa de serviços, como máquina fotográfica, filmadora, posicionamento GPS, etc. Na prática a indústria de celulares está mudando seu foco de hardware para software. Os novos entrantes são da indústria de TI como a Apple (iPhone) e o Google (Android), trazendo toda uma expertise do mundo da computação e que promovem mudanças radicais, desde a forma do aparelho até a oferta de serviços.
O que isto significa? Bem, primeiro o grande desafio é escrever estas milhões de linhas de código. A criação de softwares embarcados tende a crescer exponencialmente, não apenas na complexidade dos produtos a serem desenvolvidos, mas também no volume de código a ser escrito.
Estes softwares, em sua maioria, demandam alta qualidade de código, pois muitas vezes operam em condições críticas de segurança e disponibilidade. O nível de exigência em qualidade tende a ser muito maior que a exigida na maioria das aplicações comerciais que vemos hoje nos computadores das empresas ou nas residências. O custo de um recall pode significar um prejuízo incaculável. Uma falha no software de um desktop caseiro é apenas um incômodo para seu usuário, enquanto uma falha em um sistema médico pode matar uma pessoa.
Além disso, a forte tendência de operarem em rede, interconectados e integrados a outros equipamentos aumenta a complexidade da tarefa e a demanda por qualidade, pois um elo falhando, eventualmente pode levar toda a rede a ser colocada em cheque.
Desenvolver software embarcado é uma janela de oportunidade para o país e para a criação de milhares de empregos especializados que não pode de nenhuma maneira ser subestimada ou deixada em segundo plano.
Mas, para isso, um aspecto fundamental é a formação de recursos humanos. Para termos no Brasil uma indústria de software embarcado saudável e competitiva em escala mundial precisamos ter uma rede de formação de recursos humanos adequada. A formação educacional atual apresenta a deficiência de ter seus cursos voltados à formação de empregados e não de empreendedores. Apesar de muitas universidades formarem profissionais graduados com ênfase em tecnologia da informação, o número de profissionais formados em engenharia de software ainda é proporcionalmente pequeno. As especializações envolvidas no projeto de softwares embarcados como conhecimento de sistemas em tempo real ainda não está disseminado e poucas instituições abordam a temática.
Temos muito trabalho pela frente!
*Cezar Taurion é gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil. Seu blog pode ser acessado em www-03.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion.
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